segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Solidão na multidão

fui lá
sim, fui e vi gente
não muita mas a suficiente para me sentir só
todos aqueles olhares me souberam aquele ar quente que escorre das paredes 
por entre a multidão era possível distinguir a indiferença
à medida que se ia atravessando a calçada, arrastavam-se para o lado
e levavam consigo os sorrisos inúteis sem qualquer espécie de conforto
Não procuravam encontrar-me e eu também não lhes dei nada.
Por entre as luzes sem barulho procurava desenhar um qualquer rosto
pensei mesmo em pintá-lo ali, mas não havia o ambiente.
Depois percebi que estava perdida na minha própria casa.
Já não fazia a menor ideia de onde ficavam as portas,
mas o que mais queria era sair.
Também tentei encontrar uma janela,
mas graves reposteiros pareciam cobrir o meu futuro.
Acabei por concluir que já não haveria fim,
para algo que nunca teve começo.
Não consigo apontar com clareza,
já nem imagino o que pensaria se o soubesse.
Mas assim acabei por vir para casa.
E de qualquer modo fui.
Cumpri o que seria suposto,
mas não terminei nada.
Sentei-me nas cadeiras certas,
as supostas e previstas,
que não me alegraram,
mas também não me fizeram ter mais consciência. 
No fundo, há que realçar que fui.
E só por isso deveria sorrir os sorrisos deles
abraçar os abraços deles,
conversar e dançar nas palavras deles.
Mas não o fiz.
 31.7.2004
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