quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Birras, birrices e outras psicologices

Começo por confessar que não sou nenhuma autoridade no assunto, nem o conjunto de textos que quero partilhar tem a pretensão de trazer nada de novo sobre o assunto. Há demasiados livros sobre o tema, bem como pessoas muito mais credenciadas, com mais investigação e anos de experiência do que eu. O que pretendo é apenas compilar (uma espécie de corte e cose) de algumas ideias que habitualmente transmito em consulta e que muitas vezes surgem desordenadas, ao ritmo e cadência das dúvidas e questões que me vão colocando.
Hoje quero apenas começar por por esclarecer que o título é claramente publicidade enganosa, escolhi-o com intenção. Não quis deixar afastar aqueles que desistem quando vêem num título uma palavra como “parentalidade” por acharem que serão apenas mezinhas caseiras para tratar problemas que já só lá vão com antibióticos à séria… É que é mesmo disso que estamos a falar: problemas à séria! As birras e as dificuldades em gerir o comportamento das crianças são algo que desgasta filhos, pais, irmãos, avós e às vezes um centro comercial apinhado em véspera de Natal. Mas (in)felizmente ainda não há cura rápida, eficaz e infalível, que seja de toma em unidose. E porquê? Porque birras todos fazemos, crescidos incluídos, sempre que a frustração toma conta de nós. Para alguns pode ser apenas um segundo, um respirar profundo e vamos em frente, um fechar de olhos e gritar em silêncio cá dentro. Mas frustração todos sentimos e para sabermos que a sentimos é porque ela se manifesta de alguma forma dentro de nós.
Como pais, temos a mais dura e fantástica das tarefas humanas que é ajudar a edificar uma personalidade para o mundo, que possa tanto vir a ser o Nobel da Paz, Ministra das Finanças ou a pessoa mais feliz no seu monte alentejano. Para tal, é necessário sermos um contexto de aprendizagem seguro e realista das regras (mesmo que às vezes pareça que não existem) do mundo lá fora. É melhor que seja connosco que percebam as consequências para as escolhas que fazem, ainda que tenhamos que as exagerar ou antecipar. Por exemplo, seria razoável deixarmos que um filho aprendesse de forma natural e por si mesmo, que levar sandálias para a rua num dia de chuva o pode fazer ficar doente. Mas para isso teríamos que contar com a possibilidade de que tal não acontecesse e iriamos gerar uma dúvida razoável que apenas iria alimentar mais lutas de “quem tem razão” para o futuro. A verdade é que nós é que somos os pais, o que significa que somos os que detêm, à partida, melhor posição para decidir e que, em princípio, tomarão as decisões mais acertadas, que respeitarão as suas necessidades e interesses. O mundo nem sempre é justo, nem sempre há uma boa consequência para uma boa acção nem o inverso, mas é esse o princípio que quero transmitir. Vê-los sofrer porque perderam um jogo, porque não conseguem perceber um exercício, porque não querem uma vacina, porque não querem ir à escola, porque não querem comer a sopa não é bom. É muitas vezes difícil, algumas vezes doloroso, outras uma angústia horrível de aguentar no peito. Mas os que escolhemos ser pais, antes e depois de o sermos e todos os dias em que o somos, aguentamo-nos à bronca porque os amamos acima de tudo.
Por hoje é só isto.

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