sábado, 28 de maio de 2016

Prontidão na Transição Escolar

(Artigo publicado no Jornal O Alcoa desta semana)


Estamos quase no Verão e com ele chega mais um fim de ano letivo para as nossas crianças. Para as que agora terminam a sua passagem pelo jardim de infância avizinham-se mudanças maiores…Na verdade, todas as transições entre ciclos são difíceis e específicas, mas para as que agora iniciam a etapa escolar no 1º ciclo podem ser maiores que a sua “altura”. Se analisarmos bem, muitos meninos e meninas mudam de espaço, mudam de educadores/adultos de referência, mudam de colegas, mudam as rotinas… enfim, tanto que às vezes parece demais! Também para as famílias não é fácil, ter de conjugar os hábitos e rotinas familiares, os seus valores e os seus receios com as exigências e expectativas de quem inicia um acompanhamento escolar a um filho.
É por isso que considero que esta é uma etapa fundamental, um momento decisivo, que influencia em grande medida o seu sucesso educativo e equilíbrio sócio-emocional, sobretudo para minimizar a probabilidade de insucesso na adaptação à mudança e na aprendizagem. Na maioria dos sistemas educativos por todo o mundo, a idade cronológica é o principal, e muitas vezes o único, critério de admissibilidade para o início da escolaridade. Contudo, tem-se prolongado o debate entre educadores, psicólogos, pais e legisladores sobre os critérios determinantes para iniciar e ter sucesso na escolaridade. É que a prontidão escolar é um conceito multidimensional, que vai muito para além da idade cronológica da criança, e a preparação para esta transição deve ser um processo de longo prazo que resulte numa reorganização qualitativa tanto da vida interna como do comportamento externo, e que feliz ou infelizmente não se compra junto com o restante material a colocar na mochila…
Dos 4 aos 7 anos assistimos a mudanças nas crianças, em que demonstram uma independência e responsabilidade crescentes, evoluções ao nível do desenvolvimento cognitivo e modificações fisiológicas, e a entrada na escola correlaciona-se diretamente com estas alterações. Também as redes de socialização se alteram com a mudança de contexto que é significativamente diferente, seja da educação pré-escolar ou de casa para a escola, pois, entre outros aspectos, são as mais novas da escola. O ensino formal encerra em si mesmo exigências e expectativas de sucesso, que é sentido tanto pelas crianças como pelos seus pais e professores. Consequentemente, as interações entre estes mudam, tornando-se intencionais e focadas no progresso académico da criança. Contudo, estas novas exigências também se fazem sentir ao nível social e emocional, procurando-se que a criança se torne autónoma em relação aos adultos, se saiba relacionar socialmente com os seus pares, conheça e cumpra uma rotina, estando alerta e atenta por períodos de tempo mais longos.
Então, podemos concluir que muito mais importante que a resistência da mochila escolar para que “aguente” todos os manuais a transportar, há que transformar e potenciar todos os factores que serão determinantes para que esta transição seja uma oportunidade de desenvolvimento para o crescimento pessoal ou de risco de insucesso, desmotivação, desinteresse. E não vale a pena centrarmo-nos só na criança. Esperar que as crianças demonstrem prontidão, ao aprenderem algo espontaneamente sem intervenção ou preparação do ambiente, é infrutífero.Obviamente que são determinantes as suas características individuais, o seu temperamento (sobretudo nos dias de maior rabugice para sair da cama quando o despertador tocar…), o entusiasmo que tem pela novidade que a escola lhe irá trazer, a flexibilidade emocional para aceitar a frustração como um aliado inevitável da aprendizagem, a capacidade de aceitação das diferenças para lidar com a mudança, pois o desconhecido traz sempre consigo algum desconforto, receio e ansiedade. Mas também a família tem de se ajustar em comportamentos, atitudes e expectativas entre aquilo que devia ser e aquilo para que nos esforçamos realmente que seja. Na verdade, muita da capacidade de antecipar as dificuldades da criança que temos em casa e tão bem conhecemos, pode e deve ser feita com tempo e reflexão. Se sabemos da sua dificuldade em permanecer tranquila perante uma distração tão simples como uma borracha, deveremos ter em atenção um pormenor tão insignificante como este na sua aquisição. Podemos alterar rotinas familiares quanto antes e não esperar que sejam os dias mais curtos de setembro e a inevitabilidade do “tem que ser” a ditar as regras.
Por último, não quero deixar de reforçar que transição para a escola deve ser conceptualizada em termos da relação de todos os contextos envolventes e de todos os seus intervenientes com a criança, que num todo contribuem e são responsáveis por garantir que esta etapa seja um caminho na formação de melhores adultos, aqueles que serão a escola de amanhã e a sociedade que cuidará de nós.  
Com o conhecimento e reflexão aprofundada das características da transição específica de cada criança, todos estaremos em condições de reunir os recursos necessários, alterar rotinas, fazer escolhas, adaptar estratégias de ensino e aprendizagem, acomodar estruturas e mobilizar serviços, para que TODAS as crianças possam alcançar os melhores resultados possíveis desde o primeiro momento.

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