sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Saber ter tempo


Waiting For The Time To Fly
Duy Huynh
Acrylic on Wood Panel, 24 x 24

Desde muito cedo que tive muitas actividades. Morava longe da escola e tendo pais que trabalhavam muitas horas, ficava até tarde no centro social onde frequentava o ATL. Recordo-me de estar sentada no banco de madeira ao lado do gabinete da directora, quando já todos tinham saído e tinha de levantar os pés para as senhoras da limpeza lavarem o chão à minha volta. Era muitas vezes a última, mas não me recordo de esperar com ansiedade, medo ou tristeza. Acho que já era habitual e por isso lia com naturalidade tudo o que tinha dentro da mochila para que o tempo passasse mais depressa.
Quando mais tarde fui para o ciclo, os "furos" no horário e as tardes livres tinham de ser bem ocupadas para que não andasse sem rumo na cidade: ténis, natação, inglês e música. Continuei sempre assim até ir para a faculdade, sempre de um lado para o outro, com mil e uma actividades, sem que me parecesse estranho ou complicado conciliar. Na faculdade estranhei os primeiros tempos em que havia muitas horas livres e muito tempo até que os exames chegassem... Estava pouco habituada a estudar ou a dedicar tempo ao estudo e por isso o 1º semestre foi uma tragédia. A partir dali comecei a envolver-me no voluntariado, na rádio, tinha sempre com quem estar ou o que fazer, mais tarde na comissão de praxe e por último no Núcleo de Estudantes da Associação Académica, cheguei a acumular com dois estágios e parecia que quanto mais ocupada estava mais fazia, melhores notas tirava e mais focada conseguia permanecer em cada parcela do meu dia. 
Desde que comecei a trabalhar que juntei sempre mais que dois empregos, prometia a mim própria que não me ia inscrever em mais nenhuma formação e acabava sempre a ter uma ou duas horas livres por dia e o domingo para tratar da casa, roupas e sopas! Quando chegaram os filhos, surpreendentemente não prescindi de quase nada e claro que são para eles todos os momentos que posso ter. 
Mas com a chegada da minha filha e a sensação de abrandar por não ter já braços para tudo e todos que queria abraçar, fez-me desfrutar verdadeiramente de ter tempo pela primeira vez na minha vida. Passei a querer estar mais presente em cada momento, sem estar já com um pé de fora para correr para o próximo afazer. Adorei os dias em que saía de casa ainda o sol não brilhava alto com ela no carrinho e caminhava com a presença dela. Depois cozinhava e cuidava de tudo com calma, olhavamo-nos e brincávamos com o mano que íamos buscar todas as tardes à escola.
Quando recomecei a trabalhar os dias cheios e ocupados já não sabiam tão bem. Percebi que tinha de tomar decisões e prescindir do tanto que me preenchia. Da mesma forma que destralhei armários, destralhei a vida. Não tem sido fácil, há dias mesmo difíceis em que me sinto perdida e com uma vontade tremenda de me encher de actividades, fico apavorada por ter prescindido de um emprego a tempo inteiro, um ordenado certo, uma agenda preenchidíssima em que nunca dizia não a nenhuma proposta de trabalho. Agora não tenho nada disso, mas tenho tempo para me demorar na preparação de cada consulta, de cada pessoa que acompanho. Não entro e saio do consultório sem respirar a satisfação de fazer exactamente o que me faz feliz. Acordo o meu filho com beijos e vamos para a escola a pé, a escolher caminhos diferentes todos os dias. Escolho a roupa da minha filha com todo o detalhe que me merece, com lacinhos e fitinhas. Fotografo momentos dos nossos dias, escrevo o que dizem para não me esquecer da inocência e genuinidade que um dia destes se perderá. 
Estou a aprender a ter tempo e a saber viver assim. Sem muito, mas com tudo o que preciso e é importante.
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