A estratégia mais comum é o evitamento. Fugir a sete pés em caminhadas, corridas, horas de ginásio. Pensar com toda a força em coisas alegres, momentos felizes, paraísos idílicos. Espremer o que possamos de uma memória ou de uma situação desagradável até lhe encontrar um propósito, uma graça, uma intenção divina ou do destino. Há quem deixe de ver telejornais, há quem deixe de ir visitar os avós velhinhos ao lar. Outros queimam cartas, apagam fotos, bloqueiam amizades facebookianas.
Eu aprendi com a minha primeira perda a fazer limonada da tristeza. Foi mesmo isto. Chorei rios de lágrimas enquanto fiz sumo de limão para congelar, enquanto fiz meio quilo de raspa de limão para congelar, enquanto cortei cascas de limão para congelar, enquanto todo o aroma a limão perdurou pela cozinha, enquanto aqueles limões se fizeram render em meses de limonadas, aroma para bolos e chá para acompanhar. Mas foi (e é) fundamental ter-me sentido tão triste, quase tanto quanto me sinto ainda hoje quando a memória me invade sem pedir licença. É que só nesse momento é que eu tive hipótese de me sentir verdadeiramente grata por alguém fazer tanta falta na minha vida. E depois outra e depois outra, a que doeu mil vezes mais. É que me senti humana, ligada à mesma inevitabilidade que todos os outros que sofrem. Ajudou-me a ser mais, a dar mais, a receber mais, a querer lutar por mais. A querer lutar a luta dos outros, porque o sofrimento deles também passa a ser um bocadinho meu.A tristeza da perda acordou-me. Nada é para sempre, nada é certo. Mas eu quero mais deste sentir que há pessoas lugares e memórias que nos são e dão tanto, que aceito que no reverso da moeda doam quando nos deixam. Enquanto cá estiverem e eu cá estiver com elas quero ser assim, muito. Pelo menos por hoje, pelo menos agora.


